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Category: Literatura

jun 02 2011

Um Mundo de Imagens

httpv://www.youtube.com/watch?v=pn3QThGGkO0

jul 11 2010

MINHAS MEMÓRIAS DE LEITURA: POR ONDE ANDARÁ O MEU CAJUEIRO?

“Livros não mudam o mundo,

Quem muda o mundo são as pessoas”.

Os livros mudam as pessoas. Mário Quintana

SELMA CRISTINA FREITAS PUPIM

A família residia na cidade Assis, interior do estado de São Paulo, mais precisamente, na Vila Glória, próxima à rodoviária da cidade. Era considerada uma família de classe média baixa, se é que assim poderia ser denominada. Segundo os padrões sócio-econômicos daquela época, a classe média era bem definida, dessa forma, existiam os pobres, considerados remediados e os ricos.

A mãe, filha de um conhecido fazendeiro daquela localidade, havia se casado contra a vontade dos pais e tal fato tivera repercussão na sociedade, visto que o pai da noiva se recusou a entregar a filha ao futuro marido, pelo fato do noivo não pertencer ao meio em que viviam. Conforme a tradição da época, era gosto dos pais casarem suas filhas com os filhos de seus amigos, também proprietários rurais. Dessa maneira, a jovem já tinha um pretendente para desposá-la. No entanto, isso não ocorreu e a muito contra gosto do pai, casou-se com um policial militar.

Muito embora fosse dotada de uma condição sócia econômica que a favorecia, a mãe não se ocupou dos estudos e dedicava seu tempo às prendas domésticas e ao preparo de seu enxoval. Após o casamento ocupou-se do lar e da educação das filhas, diga-se, uma severa educação pautada em um regime conservador, dentro de uma postura rígida onde os direitos eram confundidos com as obrigações e vice-versa. A filha mais nova não se mostrava aplicada nos estudos, já a mais velha transformou a leitura em um hábito prazeroso.

O pai, um policial militar de pouca escolaridade havia cursado, na infância, apenas as séries iniciais do curso primário, não porque fosse avesso aos estudos, mas pela falta de oportunidade. Sendo assim, quando adulto, a incompatibilidade de horário, devido à profissão exercida, também o impedira de prosseguir o ensino regular. O mais importante é que, por algumas vezes, até tentou cursar a Madureza, um curso de alfabetização de adultos, mais uma nomenclatura dada aos Cursos Supletivos, atualmente EJA.

É de ser relevado que, o conhecido cabo Pedro, apesar da pouca escolaridade, se mostrava uma pessoa culta, instruída e, acima de tudo, um leitor exemplar. Oportuno se torna dizer que, durante suas folgas era comum vê-lo lendo o jornal do dia e, não somente algumas manchetes ou partes isoladas, mas todo o exemplar. Além disso, é preciso insistir no fato de que, na década de sessenta, os periódicos deviam ser mais acessíveis, uma vez que, na casa desta família, em que apenas o pai a sustentava, assinava-se O Estado de São Paulo, o estadão, assim chamado, as revistas: Seleções, O Cruzeiro, Manchete e a Família Cristã.

As primeiras histórias que permaneceram para sempre na memória daquela garota eram as narrativas contadas por um pároco chamado, pelas crianças do bairro, de padre Lima. O religioso quando aparecia na rua, o fazia anunciar pela buzina incessante de seu jipe; era um sinal mágico, despertava todas as crianças, que se dirigiam até a esquina, se sentavam no chão e ali se iniciava oEra uma vez…”

Apesar de todo um contexto exemplar de leitura, a filha mais nova se mostrava resistente aos livros. Apesar disso, mesmo sendo obrigada a estudar, aos dezesseis anos dera o seu grito de independência e fugira de casa, deixando sequer um objeto pessoal.

O mesmo não acontecia com a primogênita que, aos seis anos de idade, fora matriculada na primeira série do curso primário, no Colégio Santa Maria, daquela cidade. Isso nos possibilita afirmar que, o colégio de freiras contribuiu de alguma forma para despertar o gosto pela leitura naquela criança ou, pelo menos, foi nesse regime em que apenas três coisas eram permitidas: estudar, ler e rezar, que a menina iniciara uma história de leitura.

A princípio, a vida no colégio não era nada fácil, nos momentos de folga, a madre superiora, irmã Maria Brandão, em cujo semblante jamais fora visto um sorriso, encaminhava as meninas à biblioteca para descansar. Já, a irmã Zoé, um doce de candura, as levava à sala de projeção de slides para as aulas de religião. O mesmo não acontecia com a irmã Maria José, quando era a sua vez de acompanhar as alunas para o descanso, ninguém podia falar e muito menos fitá-la, de cabeça baixa conduzia todas à capela. Eram infindáveis as horas de descanso com aquela criatura, assim como era infindável a quantidade de padre-nossos e ave-marias que se era obrigado a rezar.

Apesar disso, o primeiro dia de aula, não fora tão ruim assim para a menina, que ao ver a sua primeira professora se encantou com a sua naturalidade. Dona Maria Arão Carneiro, antes mesmo de apresentar o primeiro livro da vida daquelas crianças, a cartilha Caminho Suave, iniciou a sua aula lendo um texto, que a garotinha nem sequer sabia que aquilo era assim denominado: texto. A história se chamava Meu Cajueiro, de Humberto de Campos, pelo menos era esse o nome que se eternizara na memória . O encantamento ao ouvir aquela narrativa fez com que a imagem austera das irmãs se desfizesse por alguns instantes; instantes que permaneceram por décadas na memória e só o tempo, na sua ingratidão, fizera com que a belíssima história se perdesse em sua totalidade. Em verdade, durante muito tempo a história surgia na memória:

“Aos treze anos de minha idade e três da sua, separamo-nos: meu cajueiro e eu. Embarco para Maranhão e ele fica. Ao longe posso vê-lo e enxergar seus cachos de flores roxas, como pequeninas unhas de criança com frio …”. Era mais ou menos assim a bela história do Meu Cajueiro.

O restante da história se perdera com o passar dos quarenta e quatro anos. A tentativa de recuperar a narrativa, o conto, o texto ou a obra, fora improfícuo. Por diversas vezes procurara pelos títulos de Humberto de Campos sem nenhum resultado. Até mesmo durante o curso de Letras, nem sequer o autor fora citado.

Foi nessa vereda, durante os períodos de descanso que a menina teve contato com aquele que viria a ser o seu primeiro livro. Bom é dizer, como era admirável aquela obra, parecia conter ali todas as palavras que existiam no universo e, além disso, o que elas significavam. Vale lembrar ainda que, diante de tanto encantamento, não demorou muito para que pedisse ao seu pai um livro igualzinho àquele.

Assim sendo, no dia em que completara oito anos, o pai chegara do trabalho, ainda fardado, com aquele belíssimo e sereno semblante, um enorme embrulho sob o braço. Ao abrir o presente, aquela imagem fora jamais desfeita diante dos olhos daquela criança: Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguêsa, 11ª edição (segunda impressão), Supervisionada e consideràvelmente aumentada por Aurélio Buarque de Hollanda Ferreira. (sic). E, ainda era chamado de Pequeno, o primeiro grande livro, como era lindo; hoje, já restaurado, não apresenta mais aquela capa dura e branca com pequeninas listras azuis.

De igual forma, com a expressiva contribuição daquele pai, a adolescência não fora diferente; ele atendia a todos os vendedores de livros que batiam à porta da casa e comprava muitos livros e coleções como as Fábulas de La Fontaine, Dicionário Enciclopédico Formar, Trópico Ilustrado, a coletânea das obras de José de Alencar, o Novo Michaelis, além de fascículos como, Geografia Ilustrada, recebidos pelas bancas de jornal aos domingos e uma infinidade de obras que se perderam após a sua morte. A propósito, após o transtorno passado pela sua trágica passagem desta para  a irônicamente melhor, aos quarenta e nove anos, algumas mudanças foram feitas, móveis vendidos, casa desfeita; e ao perguntar à mãe onde estavam os livros que o pai havia comprado, ela dissera:

__ Ah! A estante, sua irmã levou e quanto aos livros, alguns estão na garagem encaixotados e os mais velhos eu os joguei. Parecia que aquilo não tinha sido ouvido.

__ Mas, jogou, quais? E a minha coleção de José de Alencar?

__ Ah! O de capa azul? Não sei, acho que sua irmã levou. O fato é que, se levou ou não, nunca se soube, nunca mais fora visto; aqueles livros eram mais do que páginas impressas, eram amigos, companheiros de cabeceira, de ficção e fantasia.

Mesmo antes de ter a exata noção da existência de uma literatura, de Antonio Candido, de um Sistema Literário, da necessidade de ficção e fantasia que todo ser humano as têm e, mesmo estando muito próxima do maior crítico literário de todos os tempos, de estar a poucos metros da antiga Faculdade de Filosofia de Ciências e Letras de Assis, local por onde circulava o estudioso, ela já usufruía dessa necessidade, a necessidade de ficção e fantasia.

Inadequado seria esquecer também que, a tia Elvira, casada com o tio José, irmão de seu pai; era a tia mais legal, embora a mãe pensasse que ela deveria ser um pouco mais recatada, afinal era uma mulher casada. O mais importante é que em sua casa havia muitas revistas e livros, hoje podemos reconhecer que não eram obras literárias, eram coleções como Sabrina, Bianca entre outras. Contudo, a adolescente levava pilhas para casa, nas férias. A mãe a deixava ler com algumas restrições; em primeiro lugar, era preciso limpar a casa, depois tinha que lavar a louça do almoço e só depois poderia ler um pouco, não muito, porque estragava a vista e eram porcarias. Assim achava, pelo fato de serem romances e de falar de amor.

Não se pode perder de vista que, durante a vida escolar, muitos professores foram incentivadores para o seu processo de formação enquanto leitora, contudo, o cânone literário diferenciava um pouco da atualidade. Isso se evidencia pelo fato de algumas obras lidas, que foram significativas, naquele momento, na atualidade, sequer são mencionadas em conteúdos escolares.

O que se observa é que a Indústria Cultural dita as regras e determina o que o leitor em formação terá em seus livros didáticos e verá no acervo das bibliotecas públicas. E quando se fala em Indústria Cultural, torna-se relevante enfatizar que ela é produto de uma sociedade industrializada, onde até mesmo a cultura é vista como algo a ser comercializado, além disso, ainda determina o dispêndio desses, repetidas vezes até a exaustão, fabrica seus produtos com uma única finalidade, a troca por moeda e, em alguns casos atingir a sociedade como todo.

Dessa forma, o Meu Pé de Laranja Lima e Coração de Vidro, de José Mauro de Vasconcelos foram leituras inesquecíveis durante a formação escolar. Já, Lobato é vaga a lembrança de suas leituras, exceto a primeira aparição do Sítio do Pica Pau Amarelo, em emissora de televisão por volta dos anos setenta.

Dentro dessa visão, a coleção de José de Alencar fora devorada iniciando por: Iracema, Lucíola, O Guarani, Diva, A pata da gazela, Senhora, Ubirajara entre outros. Nesse contexto de idéias, Jorge Amado despontava na literatura e era imenso o interesse da jovem por suas obras. O autor baiano, além de retratar a sua terra, o fazia com uma sensualidade que encantava qualquer adolescente que vivia sob a censura das cenas de sexo e nudez, raramente exibidas no cinema e na televisão. Ademais, cinema nem pensar, além da maioria dos filmes serem proibidos para menores de dezoito anos, as mães não deixavam suas filhas assistirem a tais filmes. A novela Gabriela, que foi ao ar após as vinte duas horas, era proibida de ser assistida, a dona Denilce dizia:

__ Dez horas é hora de dormir, nada de assistir essas porcarias, só tem sem-vergonhice.

Era revoltante ter que ir dormir sem assistir à novela. Ademais, era revoltante também só poder estudar, limpar a casa, apanhar muito e ir à missa. Levantar todos os domingos às seis e meia para tomar café com uma hora de antecedência para participar da eucaristia, durante a missa das 8, das crianças. Meu Deus, quantas missas, procissões e terços. Nos era permitido somente aquilo que as meninas de família podiam fazer: estudar e rezar.

Nesse momento, oportuno se torna recorrer ao célebre Daniel Penac, em sua obra Como um romance, 1993. De acordo com Penac, tudo aquilo que é imposto à criança como um dever, não se tornará algo prazeroso na idade adulta.

O escritor encara esse fator como o flagelo da infância, um instrumento com o qual uma criança fora atormentada durante toda a sua fase de formação. É nessa vereda que, ao retomar o efeito desse fato, veio à tona uma das mais nobres preocupações do autor em relação à leitura como imposição e, com isso, oportuno se torna estabelecer uma analogia junto ao notável conceito do estudioso: __ Não se obriga uma criança a fazer insistentemente aquilo que a desagrada como, as missas, procissões e terços que marcaram de forma negativa uma infância pouco desfrutada.

Dessa maneira, uma criança não se interessa em aperfeiçoar o instrumento com o qual fora atormentada. Para o autor, é imprescindível estimular o desejo de aprender, antes de impor o dever. Nesse sentido, para Penac, a leitura como um dever não formará leitores autônomos. Assim, o peso do livro associado ao peso do tédio resulta em um esforço fracassado e, por isso, lê-se cada vez menos.

Assim, o autor chama a atenção para a expressiva contribuição que o hábito de leitura proporciona ao ser humano e aponta para a leitura como um passaporte para a fantasia e o despertar de si mesmo, entretanto, não se obriga uma criança a ler, deve-se então, somente facilitar o processo.

Na ocasião do lançamento de Teresa Batista Cansada da Guerra, embora soubesse que era proibido ler Jorge Amado, a curiosidade aguçava a mente, era tamanha a vontade de ler aquela obra, a curiosidade pelas cenas de sexo talvez fosse bem maior do que pela história em si e também, com certeza, estariam ali contidas muitas descrições detalhadas de cenas que interessavam às jovens daquela época, que viviam os reflexos da ditadura militar, da censura e de tudo o que convinha às meninas de família.

É bem verdade que, nas aulas de língua portuguesa, os professores não indicavam essas leituras, no entanto eles as liam. Como aluna que se sentava na primeira carteira enxergava todos os livros da professora.

__ Certa vez, ao observar a professora Maria do Carmo, docente do Instituto de Educação Dr. Clybas Pinto Ferraz, em sua mesa, atenta à sua leitura, enquanto fazíamos o dever escolar, para minha surpresa e espanto, quando ela levantou o livro e, simplesmente, os meus olhos leram Tereza Batista Cansada da Guerra, Jorge Amado, não me contive, me levantei e lhe disse: __ Professora, me empresta este livro? __ Que é isso menina, você está louca? Sua mãe me mata. Já leu A Moreninha que é para ler?

__ Ah, professora, eu queria muito ler, já li A Moreninha.

__ Está bem, assim que terminar a leitura eu empresto, mas não me comprometa.

Sem dúvida, a leitura dela demorou uma eternidade, eu perguntava todos os dias se ela havia terminado a leitura e quando ela não agüentava mais, me emprestou o livro. Assim que cheguei a minha casa, encapei o livro para que minha mãe não o visse e devorei aquela obra. Eu havia pedido para meu pai comprar, mas minha mãe dizia que não, que era imoral. Acredita que até a música Amada Amante, de Roberto Carlos era imoral? Que os filmes Amigos e Amantes e Love Story também os eram, parece que tudo naquele tempo era imoral.

Em verdade, ao final da leitura, compreendi porque tudo aquilo nos era proibido, a vida daqueles meninos de rua era muito promíscua, mas bem interessante. Ficava até sem jeito quando meu pai me chamava de Tereza, coitado, de tanto que eu pedia para que ele comprasse o livro ele acabou me apelidando de Tereza, ainda bem que por pouco tempo, mal sabia ele quem tinha sido Tereza Batista. Passados muitos anos, li quase todas as obras de Jorge Amado, porém com um outro olhar.

Foram tantas as leituras que se fosse enumerá-las ficaria toda uma vida. Burrico Lúcio, todas as obras de Sidney Sheldon, passando pelo Xangô de Baker Street, de Jô Soares, Xamã e o Físico, de Noah Gordon. Mas, sem dúvida, a obra que mais encantou na adolescência, fora D. Casmurro, de Machado de Assis. A obra, recomendada por uma professora, no terceiro ano do Colegial, pois pensávamos no vestibular; recordo que minhas amigas odiaram, mas algo me levava a reler e a Capitu me conquistara definitivamente, li e reli uma infinidade de vezes e o faria mil vezes, se possível. Machado era mesmo inesgotável, seus romances prestam-se às interpretações mais diversas, muitas delas conflitantes. Suas obras demonstram uma vitalidade cujo potencial se transforma em fonte de inspiração de estudiosos.

Ao passo que a tentativa de ler as obras de Paulo Coelho, fora em vão; muito embora as pessoas estivessem lendo e a crítica, por sua vez, as reconhecesse, nenhuma delas encantou o suficiente para que a leitura fluísse até o final, alimentando o espírito. Apesar de todo o reconhecimento que o autor adquirira, o que se observa é que suas obras já não fazem tanto sucesso, quem sabe pelo fato do mago não ser o mesmo fenômeno alimentado pelo mercado editorial e não ter encontrado uma nova forma de se reinventar,como Machado.

Talvez, em um futuro não muito distante, aqueles que o elegeram imortal se arrependam de tal feito, visto que, o verdadeiro escritor é aquele que reinventa, que cria e transcende todas as expectativas do leitor. Nesse sentido, quem não o faz não se tornará um cânone, passará como uma infinidade de tantos outros que se denominavam escritores.

Entretanto, em Vidas Secas, era como se ouvisse as célebres palavras de Candido: a literatura humaniza as pessoas. Dessa forma, todas as cachorras abandonadas e famintas que perambulam pelas ruas com olhares piedosos de compaixão levam à personagem Baleia.

Em síntese, de Noah Gordon a Sidney Sheldon; de Paulo Mendes Campos e Humberto de Campos a José Mauro de Vasconcelos; de Machado de Assis a Guimarães Rosa,  não importam os títulos e autores que iniciaram a minha trajetória enquanto leitora, isso tudo veio consolidar o gosto pela leitura e pelo encontro final com o meio literário e se estenderá enquanto houver vida.

Amo a vida, a arte e a poesia.

Amo a natureza e a Língua Portuguesa.

Autorizo a reprodução do texto Minhas memórias de leitura: Por onde andará o meu cajueiro?, de minha autoria, para uso didático na Disciplina Literatura: escritura/leitura, ministrada no Programa de Pós-Graduação em Letras Strictu-Sensu, da FCL – UNESP, Campus de Assis.

jul 11 2010

Literatura e Contexto Histórico: suas ressonâncias em textos contemporâneos

Literatura e Contexto Histórico: suas ressonâncias em textos contemporâneos

PERGUNTAS DE UM TRABALHADOR QUE

Quem construiu a Tebas de sete portas?

Nos livros estão nomes de reis.

Arrastaram eles os blocos de pedras? Brasilia

E a Babilônia várias vezes destruída

Quem a construiu tantas vezes? Em que casas

de Lima radiante dourada moravam os construtores?

Para onde foram os pedreiros na noite em que

a Muralha da China ficou pronta?

A Grande Roma está cheia de arcos de triunfo.

Quem os ergueu? Sobre quem

Triunfaram os césares? A decantada Bizâncio

Tinha somente palácios para seus habitantes?

Mesmo na lendária Atlântida

Os que se afogavam gritavam por seus escravos

Na noite em que o mar tragou.

O jovem Alexandre conquistou a Índia.

Sozinho?

Considerações Iniciais

“A história é feita pelos homens, ao mesmo tempo em que nela vão se fazendo também”.

Paulo Freire

As epígrafes sugerem relevantes reflexões à elaboração de qualquer escrita. Dessa forma, voltar no tempo é preciso, visto que as características da realidade exigem uma determinada volta ao passado. Todo fato atual retoma o passado como identidade e como ponto de partida para explicar fatos da atualidade.

Sob esse aspecto, as civilizações apresentam como marco inicial a palavra escrita, representada como testemunho mais eloqüente de qualquer cultura. Segundo o historiador Marc Bloch, a definição de história incide numa Ciência dos homens através do tempo e, desse modo, esse conhecimento só poderá ser compreendido como estrutura social de forma a algo relacionado entre os homens, suas ações e significações. De todo modo, tais ações deverão abranger grupos e a história, como ciência, deverá sempre ser constituída por um fato e, sobretudo por um homem.

Ao longo do tempo, a história se ocupou dos grandes acontecimentos, dos grandes nomes e heróis; sendo que, o essencial de todo o processo: os que realmente a construíram, a grande massa muda, a essência de toda historicidade, ou seja, aqueles que verdadeiramente edificaram uma história permaneceram no anonimato.

Estudos divulgados mostram que, no século XIX, com o surgimento de uma Nova História, passou-se a dar relevância a todos os atos humanos, enriquecendo a reflexão histórica, tirando-a de seu isolamento e aproximando-a às outras ciências, de forma a estudar o homem em sua globalidade, já que o fundamento dessa abordagem histórica é a própria historicidade humana. Contudo, os homens que a construíram ainda não são considerados personagens dessa construção.

Nesse mesmo sentido, o homem é um ser do tempo com existência em cada sociedade, com condição de possibilidade de se inserir no processo histórico, não podendo dessa forma, o que denominamos História, atribuir valores somente aos grandes nomes.

Dessa forma, esta pesquisa, contribuir para a continuidade do trabalho no Ensino da História, sob a perspectiva de consolidar novas práticas pedagógicas, contribuindo para que, um número maior de sujeitos históricos, saia do anonimato e passem a construir junto aos grandes nomes a História da Humanidade. Diante disso, compreender a importância da disciplina de História na construção da cidadania dos diversos sujeitos sociais, além da importância dos conhecimentos históricos como base para participação ativa e consciente na sociedade.

Em síntese, a proposta deste artigo consiste em contribuir com o vínculo estabelecido entre a História e Literatura, no sentido de apontar desafios teóricos e metodológicos decorrentes da interpretação da realidade, ao mesmo tempo em que observamos o ressurgimento da narrativa, exigindo uma resposta de historiadores e literatos no atual momento.

O que chamamos de História

Chamamos de História, a experiência humana partilhada por cada um dos homens e por toda a humanidade. Desse modo, corresponde à História, a tradição oral, os usos e costumes, os documentos escritos, os objetos e demais sinais humanos, que denotam vestígios de experiências vividas.

Olhar para a história é olhar sobre o passado como um recorte. A reconstituição da memória das experiências vividas exige uma crítica cuidada dos testemunhos e, diante disso, cada história produz uma leitura própria por quem a contou. O historiador, perante o escasso acesso ao passado em sua totalidade, posto que essa memória se mostra um tanto fragmentada, se encontra diante de uma história fragmentada.

É bom lembrar que, a história presente na escola é a que chamamos de tradicional, produzida por uma burguesia triunfante a partir da Europa, pela garantia de seu poder e pelo culto aos heróis. Na medida em que o predomínio da burguesia-capitalista não foi superado, a história que lhe interessa persiste. É dessa forma, que na história contada, justificam-se os interesses.

O fato maior, é que os sujeitos sempre estiveram presentes na história. E, de certo modo, para a atualidade, todo fato ocorrido em eras remotas passa a construir a história. A experiência, o cotidiano, a vida dos que não têm voz, nem nunca tiveram vez, acaba por tornar a história contada um exercício intelectual de transformação social. Por certo, não cabe ao historiador produzir um projeto de sociedade, sua tarefa consiste em olhar e ler a experiência vivida.

A história real foi escrita pela sociedade, sendo que, ao historiador cabe reconstituí-la, preservando-se a memória do acontecido, mesmo que lhe faltem fatos que a justifique e, muito embora, com toda a obliqüidade possível.

Literatura e História

A Literatura representa um privilegiado instrumento no sentido de vislumbrar o passado do mundo. Muito embora a Literatura não seja considerada História, a disciplina desempenha o relevante papel de mediadora entre os povos que se distanciaram no tempo.

De igual forma, a ficção relata, por meio de personagens, usos e costumes, os testemunhos, reflexões, opiniões vivenciadas em tempos remotos. Além da imagem da época, relata-se também a idéia que se tem do futuro.

A partir disso, na medida em que deixa de ter sentido uma teoria geral de interpretação dos fenômenos sociais, apoiada em idéias e imagens do presente e antecipadoras do futuro das civilizações, ocorre uma segmentação das ciências humanas e um movimento paralelo de associação multidisciplinar em busca de saídas.

Assim, mesmo a literatura produzida sem um compromisso com a verossimilhança dos fatos, constrói um mundo que se contrapõe ao mundo real, é inegável que, através dos textos artísticos, a imaginação produz imagens, e o leitor, no momento em que, pelo ato de ler, recupera tais imagens, encontra uma outra forma de ler os acontecimentos constitutivos da realidade que motiva a arte literária.

No mais, são notáveis os períodos que compreendem os estudos poéticos da Antigüidade, as pesquisas estéticas do Romantismo e as novas propostas teóricas ao longo do século XX, que vieram a se tornar a opção teórica de inúmeros pesquisadores nesse fim de século.

O historiador, portanto, deve se apropriar da noção de intriga, elaborada pela ficção, recurso que possibilitará uma compreensão aberta do real. É o narrador, através de sua intriga, que faz emergir do esquecimento a matéria desordenada de acontecimentos do real, pois atribui sentido aos fatos.

Assim, ao escolher  os fatos que merecerão destaque na construção de suas tramas, o historiador não deixa de inventar, à sua maneira.

Dessa maneira concebidas, historiografia e narrativa de ficção são formas de conhecimento do mundo, em sua temporalidade, o que levaria a contestar tanto as noções puramente estéticas da literatura quanto a idéia da escrita da história como discurso científico de natureza oposta à narrativa.

Com a proposta  de refletir sobre literatura na perspectiva da história social, levando em consideração o aspecto tempo, tanto para o acontecimento quanto como para seu relato, tomemos o pensamento Benedito Nunes, no que se refere a narrativa ficional e História:

[...] narrar é contar uma história, e contar uma história é desenrolar a experiência humana do tempo. A narrativa ficcional pode fazê-lo alterando o tempo cronológico por intermédio das variações imaginativas que a estrutura auto-reflexiva de seu discurso lhe possibilita, dada a diferença entre o plano do enunciado e o plano da enunciação. A narrativa histórica desenrola-o por força da mímeses, em que implica a elaboração do tempo histórico, ligando o tempo natural ao cronológico. (NUNES, Benedito. 1988, p. 9-35)

Nesse contexto, Roland Barthes em O rumor da língua, questionou sobre a veracidade dos fatos no discurso histórico, considerando sua própria existência lingüística. Para Barthes, a história deve ser vista, se não como ficção, pelo menos como discurso, visto que narração e história se diferem realmente, por algum traço específico, por uma pertinência incontestável, da narração imaginária. Contudo, o estudo das características fundadoras do discurso histórico responde que, do ponto de vista da estrutura, ambas as narrativas compartilham de diversas características.

A Influência da História na Contemporaneidade

“Ninguém pode ser um caderno vazio, todos nascem para contribuir e transformar a história” Paulo Freire

Uma das questões que norteiam o tempo refere-se ao percurso que se desloca do presente em direção ao passado. Em razão disso, todo momento presente consiste na realização dos acontecimentos ocorridos anteriormente, uma vez que, o vivido se dilacera entre o passado e o futuro e, voltar na história significa um minucioso estudo do outrora transformado no hoje.

Nessa perspectiva, conforme salientado anteriormente, verifica-se a formação das relações sociais, assim como o poder da literatura como um instrumento privilegiado para vislumbrarmos o passado do nosso mundo que nos cerca.

Antonio Candido, com riqueza intelectual, reafirma, através do seu texto Literatura e Sociedade (1967), o preponderante papel que a história desempenha na análise de uma obra literária. O estudioso examina a influência do meio social sobre a obra de arte e a domínio desta sobre o meio, diante disso, coloca a literatura como uma relação inextricável, do ponto de vista histórico e, estabelece entre ambas uma afinidade que incorpora valores do comportamento do homem primitivo e do civilizado, dos quais depende a intemporalidade e a universalidade.

Nessa postura, a história fortalece nossas relações com a cultura dos cidadãos oferecendo-lhes informação dos acontecimentos expressivos que marcaram a humanidade e que são essenciais para a formação da cidadania de um povo.

Segundo Candido, a função histórica ou social de uma obra depende da sua estrutura literária e esta decorre de verificações centradas nos fatos históricos. Nesse contexto, as tendências historicistas, marcadas de relativismo, encontram na literatura uma conseqüência direta dos fatores do meio e da época, que cada povo possui e que à História cumpre exercer. As manifestações literárias se vinculam ao contexto histórico de cada época, assim não existe literatura sem história e esta caminha a lado daquela.

A literatura tem adquirido uma função mediadora, considerando o grau de parentesco que a ela lhe foi atribuída, dada as relações estabelecidas com a História. Muito embora, a Literatura não seja a História, propriamente dita, conferem-lhe laços consanguíneos de prima-irmã da História.

Assim considera Walter Benjamin,

O romance acompanha o homem constante e fielmente desde o princípio dos tempos modernos. A “paixão de conhecerse apossou dele então para que ele possa indagar a vida concreta do homem e a proteja contra o “esquecimento do ser” para que ele mantenha o “mundo da vida” sob uma iluminação perpétua. [...] Descobrir o que somente um romance pode descobrir é a única razão de ser de um romance. O romance que não descobre uma porção até então desconhecida da existência é imoral. O conhecimento é a única moral do romance. (BENJAMIN, 1975. )

A partir desses apontamentos, cabe relevar as considerações claras do autor Bertold Brecht , em seu poema Perguntas de um Trabalhador que Lê. O poema em análise denuncia de um modo sutil, a insignificância de personagens, cuja história constituíram peças imprescindíveis. Ao edificar grandiosos monumentos eternizados pelo tempo, permaneceram no mesmo anonimato, antes e depois das maravilhas criadas e dos feitos se efetivarem como A História da Humanidade.

Entre os grandes poetas, que souberam incorporar, em seu trabalho, um compromisso social explícito à linguagem de seus versos, está Bertolt Brecht, poeta alemão, nascido a 10 de fevereiro de 1898, em Augsburgo e falecido em 14 de agosto de 1956, em Berlim Oriental. Eugen Berthold Friedrich Brecht foi um dos mais importantes autores, dramaturgo e poeta da Alemanha do século XX. De formação marxista, Bertolt Brecht, como era conhecido, dava grande importância à dimensão pedagógica das suas obras teatrais: contrariando a passividade do espectador, sua intenção era formar e estimular o pensamento crítico do público.

Para tanto, servia-se de efeitos de distanciamento, como máscaras, intervalos musicais ou painéis nos quais se comentava a ação. Brecht expôs em seus escritos uma nova forma de entender o teatro. Brecht expôs sua obra literária e teatral a serviço da política; começou a escrever cedo e publicou seu primeiro texto num jornal em 1914.

Sua obra foi uma das que mais impacto teve na cultura brasileira. Os primeiros tradutores do poeta se concentraram em sua mensagem poética e, dessa forma, o poeta Haroldo de Campos, um incansável idealizador de formas poéticas fortes, foi o primeiro a traduzir suas obras. Como de hábito, Haroldo traduziu a poesia de Brecht, no mais alto grau com compromissos éticos e estéticos. Estas traduções provocaram um grande impacto ao revelar um autor conciso, de retórica despojada.

De fato, o poeta, certamente, ocupa um lugar peculiar na poesia ocidental moderna, visto que sua contemporaneidade se faz observar por meio de um sábio retrocesso anacrônico, cuja alquimia verbal autônoma é procedente de fontes orientais antigas, mais precisamente, a Bíblia e a literatura chinesa clássica.

Quanto à forma poética escolhida pelo autor, observa-se a elaboração de elementos simples, o que lhe permite a veiculação de mensagens claras e de fácil entendimento. Haroldo de Campos traduziu um dos mais expressivos poemas do autor, Fragen eihes lesenden Arbeiters, Perguntas de um Trabalhador que Lê, reproduzido a seguir. No poema em análise, o autor destaca a influência babilônica nas obras de poetas gregos como Homero e Hesíodo, na geometria do matemático grego Euclides, na astronomia, astrologia, heráldica e na Bíblia. Conforme já salientado, fatos marcantes, como grandes monumentos, a Muralha da China, cuja construção, acredita-se ter ocupado a mão-de-obra de cerca de um milhão de homens, sendo que, duzentos e cinqüenta mil teriam morrido durante a sua construção, entre soldados, camponeses e cativos.

Fragen eines lesenden Arbeiters

Wer baute das siebentorige Theben?

In den Büchern stehen die Namen von Königen.

Haben die Könige die Felsbrocken herbeigeschleppt?

Und das mehrmals zerstörte Babylon —

Wer baute es so viele Male auf? In welchen Häusern

Des goldstrahlenden Lima wohnten die Bauleute?

Wohin gingen an dem Abend, wo die Chinesiche Mauer fertig war

Die Maurer? Das große Rom

Ist voll von Triumphbögen. Wer errichtete sie? Über wen

Triumphierten die Cäsaren? Hatte das vielbesungene Byzanz

Nur Paläste für seine Bewohner? Selbst in dem sagenhaften Atlantis

Brüllten in der Nacht, wo das Meer es verschlang

Die Ersaufenden nach ihren Sklaven.

Der junge Alexander eroberte Indien.

Er allein?

Cäsar schlug die Gallier.

Hatte er nicht wenigstens einen Koch bei sich?

Philipp von Spanien weinte, als seine Flotte

Untergegangen war. Weinte sonst niemand?

Friedrich der Zweite siegte im Siebenjährigen Krieg.

Wer Siegte außer ihm?

mai 08 2010

“Literatura na escola: espaços e contextos: Vamos cair no Conto …. Literário”

Responsável: Selma Cristina Freitas Pupim

Justificativa:

Um dos questionamentos mais freqüentes, transformados em crescente preocupação, atualmente, refere-se à baixa qualidade da educação brasileira, ou seja, à deficiência da capacidade leitora dos alunos do ensino fundamental. Nesse sentido, os números são bastante conhecidos e têm tido grande destaque nos meios de comunicação Segundo pesquisas, o Brasil não apresenta índices satisfatórios no que se refere à leitura, produção de textos e conhecimentos lingüísticos mínimos necessários ao ensino básico.

Com os resultados do PISA – Programa Internacional de Avaliação de Estudantes – detectou-se por todo o mundo uma crescente preocupação com as relações estabelecidas entre os leitores e o material escrito, em especial, o Livro de Literatura. Observamos no Brasil essa mesma preocupação, no entanto, apesar de todo o investimento em programas de fomento à leitura por parte dos governantes, as políticas públicas de Formação de Leitores não estão atingindo seus objetivos de formar leitores qualitativamente melhores.

Isso se deve à ausência de ações mais efetivas e que proporcionem ao jovem leitor uma leitura mais significativa. De nada adiantarão os projetos de leitura, distribuição de livros se o leitor não for orientado por mediadores que se proponham ensiná-lo a ler.

Dessa forma, a promoção da leitura no Brasil tem sido motivo de preocupação dos órgãos responsáveis pelo ensino da leitura: Ministério da Educação, Secretarias Estaduais de Educação, Secretarias Municipais, entre outros. Nesse sentido, vimos, nos últimos anos, um contínuo investimento em livros literários diversos, a fim de tentar analisar e reavaliar criticamente essas políticas e propor uma reflexão sobre a relação do aluno com sua língua materna.

O PISA é uma avaliação que visa traçar um panorama mundial da educação com a aplicação de testes nas diversas áreas do conhecimento. Realizado pela primeira vez em 2000, enfatizou a proficiência em leitura, detectando que os estudantes brasileiros pouco entendem do que lêem.

Conforme dados apontados pelo PISA, em 2001, com foco centrado na leitura, elencou o Brasil em último lugar entre 31 nações. A segunda edição, em 2003, o país alcançou o 37º lugar, num ranking de 40 países pesquisados. O país não apresenta índices satisfatórios no que se refere à Língua Portuguesa e seus desdobramentos: leitura, reflexão sobre conhecimentos lingüísticos, compreensão e produção de textos.

Dessa forma, este projeto, desenvolvido na Sala de Leitura, da EMEF “Profª Amélia Abujamra Maron”, cidade de Ourinhos, região Sudoeste do Estado de São Paulo, tem por objetivo orientar os alunos em suas leituras, bem como, norteá-lo para uma análise mais aprofundada dos textos literários, sobretudo os contos, no sentido de buscar alguma contribuição para modificar os resultados apresentados nas avaliações nacionais e internacionais, além de avaliar o papel que poderá desempenhar a literatura na efetiva formação do leitor. As ações efetivas não implicam apenas na distribuição de livros, mas, sobretudo, em determinar sua forma e conteúdo, captar intenções, emoções e vivências subjacentes, transformando o aluno em multiplicador do saber literário.

Propusemos neste trabalho, desenvolvido em “Sala de Leitura”, um estudo que pudesse ampliar a competência leitora dos alunos e contribuir para modificar os resultados apresentados por eles nas avaliações nacionais e internacionais.

O PISA

[...] baseia-se em um modelo dinâmico de aprendizagem, no qual novos conhecimentos e habilidades necessários para a adaptação bem sucedida de um mundo em transformação são continuamente adquiridos no decorrer da vida. O PISA não avalia só o conhecimento dos estudantes, mas examina também sua capacidade de refletir sobre o conhecimento e a experiência, e de aplicar esse conhecimento e experiência em questões do mundo real. (p. 14) grifo nosso.

Nesse contexto, a função da escola não se resume apenas em transmitir conteúdos, mas também oferecer recursos para o aluno interpretar o mundo em que vive e torná-lo mais reflexivo diante de situações diversas. Desse modo, a leitura é um processo que possibilita a obtenção desses recursos uma vez que se trata de um caminho contínuo e que leva ao aluno informação e conhecimento.

Entretanto, é necessário que as Unidades Escolares e as Salas de Leituras busquem agregar pessoas comprometidas com a leitura e tenham como objetivo principal conduzir o aluno ao universo da leitura. O perfil da direção escolar, bem como, dos profissionais envolvidos e ligados à biblioteca interferem diretamente na construção do sujeito-leitor. Sabendo-se que toda atenção dispensada à leitura é da maior relevância e que implica na necessidade de um trabalho contínuo, acreditamos, portanto, que seja essencial um posicionamento mais decisivo por parte dos mediadores de leitura, no sentido de recrutar profissionais que se mostrem conscientes e competentes.

Tendo em vista a peculiaridade que configura o ato de ler e que o desenvolvimento da leitura é fundamental para a descoberta e formação pessoal do indivíduo, cabe-nos uma parcela de contribuição para esse leitor em formação; logo, é dever da escola e do professor formar leitores e promover o acesso à Sala de Leitura e, conseqüentemente, às obras.

Dessa forma, além do incentivo à leitura, procuramos dar prioridade ao gênero narrativo, uma vez que “narrar” é uma manifestação que acompanha a humanidade desde a sua origem e se faz presente até a atualidade. Assim, veremos que muitas são as possibilidades de narrar: oralmente ou por escrito, em prosa ou em verso, utilizando imagens ou não. E que, diante de uma leitura reflexiva, é possível perceber que toda narrativa possui elementos fundamentais, sem os quais não poderia existir e que, de certa forma, responderiam às seguintes questões: O que aconteceu? Quem viveu os fatos? Como? Onde? Por quê?

Em outras palavras, toda narrativa se estrutura sobre cinco elementos: enredo, personagem, espaço, tempo e narrador. Dessa maneira, à medida que o leitor começa a tomar conhecimento, em suas leituras, dos elementos estruturais da narrativa, consolida-se um envolvimento entre autor – obra – público, o tripé denominado por Antonio Candido, escritor e crítico literário, como um verdadeiro sistema literário.

Existem inúmeras teorias sobre a análise da narrativa e que fornecem instrumentos suscetíveis para uma apreciação do texto com precisão, evitando uma leitura superficial, comentários vagos e aleatórios. O importante é que esses conceitos sejam adequados e permitam análises precisas utilizadas de maneira não-mecânica.

Objetivos:

Além de implantar um programa de leitura baseado no trabalho de análise de textos literários nas Salas de Leitura, este projeto tem por objetivo enfatizar a contribuição que a literatura pode oferecer para a efetiva formação do leitor, nas suas relações com o aprendizado da Língua Portuguesa, abrangendo aspectos ligados à produção de textos, à compreensão e à reflexão sobre os conhecimentos lingüísticos. Além disso, contribuir de modo abrangente para a execução de ações que facilitem a circulação de livros e periódicos, sobretudo, a literatura, para a uma formação permanente do leitor.

Sob esse aspecto, torna-se relevante verificar a recepção das obras literárias pelos alunos, com a identificação de aspectos ligados à adesão e à rejeição das obras propostas. E com isso, incentivar o gosto pela leitura e promover o estudo das obras lidas, por meio da “análise da narrativa”.

Em suma, ensina-se a ler e a escrever lendo e analisando bons textos. Com essas ações torna-se possível verificar a capacidade de:

· Compreensão das idéias do texto na sua globalidade;

· Distinção das idéias básicas das secundárias;

· Compreensão do significado de palavras, expressões ou estruturas;

· Análise do texto do ponto de vista da unidade temática e estrutural;

· Identificação das categorias da narrativa e dos modos de representação e expressão.

Após aprovação do projeto em pauta pela Secretaria Municipal de Educação de Ourinhos, fora iniciado o trabalho na EMEF “Profª Amélia Abujamra Maron”. Elaboramos um cronograma onde as 5ª a 8ª séries do ensino fundamental fariam um rodízio pela Sala de leitura.

Nesse sentido, a leitura de obras de ficção, habitualmente, feita pelos alunos, poderá ser muito mais proveitosa quando devidamente orientada, isto é, quando precedida de uma espécie de roteiro de leitura.

Metodologia:

Partindo-se do conceito de que uma boa análise se procede desmontando todo o texto, verificamos que esse constitui o objetivo de uma boa leitura: desvendar a história e aproximar ficção e realidade.

A primeira aula, apresentada em forma de slides, foi destinada à apresentação do projeto; considerações sobre literatura e leitura, bem como os seus benefícios; citações de alguns autores; leitura do Conto: Negócio de menino com menina, de Ivan Angelo e um exemplo de análise estrutural, sob a perspectiva de Yves Reuter e Roland Barthes. Num momento posterior foi apresentado o Conto de Escola, de Machado de Assis; O Torcedor, de Carlos Drummond de Andrade, entre outros. Ao iniciar o trabalho com romances a primeira análise apresentada foi um estudo da obra Sapato de salto, de Lygia Bojunga Nunes.

Nesse contexto de análises foi possível estabelecer relações entre o lugar do livro na escola e, conseqüentemente, os modos de ler, interpretar e de produzir textos nas instituições escolares. Desse modo, foi oferecida uma síntese de estudos e orientações sobre o ensino da leitura e o uso do texto literário na escola.

O primeiro procedimento adotado, ao iniciar o trabalho com os demais textos, consistiu em orientar os alunos a consultar o dicionário quando uma palavra não puder ser interpretada pelo contexto; observar os elementos que constituem a narrativa, bem como, a relevância dos personagens, tempo e espaço dentro de um texto. A maioria destes, não tinha noção sobre as funções que desempenham o narrador, personagens, tempo e espaço dentro de uma obra. Um exemplo que evidencia bem a função do “espaço” dentro de uma história é claramente observado no Conto de Escola, de Machado de Assis, em que o personagem Pilar se divide entre o espaço fechado da escola e o espaço aberto onde passava as manhãs brincando. Outro exemplo apontado foi o conto O Torcedor, de Carlos Drummond de Andrade, onde demonstra claramente a transformação do personagem Eváglio. Dessa forma, a cada conto estudado, percebia-se o avanço perante as análises. Já na obra Sapato de Salto, de Lygia Bojunga Nunes, os alunos puderam observar os temas polêmicos que a autora aborda e a análise se voltou para a personagem Sabrina.

Efetivada a leitura e sanadas as dúvidas lexicais, o momento posterior foi proceder à análise, onde o aluno registrava em forma de “fichamentos”, seguindo o roteiro em anexo, com a orientação deste professor-orientador e responsável pelo projeto. Alguns aspectos foram orientados para que se observasse no decorrer da leitura, como: caracterização das personagens; tempo cronológico, narrativo e psicológico; espaço físico e psicológico; narrador; valores estéticos e estilísticos e as temáticas abordadas, bem como, a intencionalidade do autor.

A idéia sugerida foi a de que o trabalho fosse realizado em grupos; cada grupo faria uma análise de uma obra literária por bimestre, evitando-se assim, que um grupo não procedesse a cópia dos demais; foi estabelecido um cronograma de leituras e etapas para a apreciação; cada etapa foi registrada em forma de fichamentos; num primeiro momento todos os integrantes fariam um resumo da obra e em seguida cada um tinha o seu item a ser trabalhado; para cada obra analisada era estabelecido um rodízio de atividades entre os alunos, para que pudessem se interar de todos os elementos de uma narrativa.

A partir disso, no decorrer do trabalho, em outras leituras como, as de periódicos, romances, poemas, os alunos já localizavam estes elementos, assim como as mensagens subjacentes ao texto.

Quanto aos recursos utilizados: I – Humanos: A professora responsável pelo projeto se propôs a desenvolver o trabalho com os alunos. As obras foram adotadas de acordo com a diversidade de gêneros literários. Além disso, a professora desempenhou um importante papel de “orientadora” no decorrer das leituras. Parafraseando Carl Rogers, (apud JUSTO, 1973. p. 109): “Não se pode ensinar diretamente a uma outra pessoa, pode-se, tão-somente, facilitar a aprendizagem”.

II – Materiais: Sala de Leitura; recursos audiovisuais; obras e diferentes tipos de textos: Romances, contos, novela, poesia; textos literários de cordel; textos jornalísticos e publicitários; e os periódicos.

Avaliação:

A avaliação foi observada no decorrer do projeto, de diversas formas: debates durante os quais informam o que absorveram em suas leituras; análises das obras; relatórios individuais sobre as pesquisas; fichamentos de obras lidas e a própria progressão do aluno. No entanto, o procedimento de avaliação deverá ser abrangente e não restrito ao projeto. Sendo assim, é dessa forma, conhecendo as entrelinhas, que se adquire o gosto pela leitura.

O professor titular de sala poderá, ainda, com este procedimento, valorizar a análise literária feita pelo seu aluno e considerar como uma das formas de avaliação bimestral, sob a orientação do professor da sala de leitura. Esse procedimento incentivará as análises posteriores e, conseqüentemente, a leitura. Embora o trabalho seja realizado em grupos, o aluno terá uma avaliação individual, que será acompanhada, no decorrer do bimestre, em forma de fichamentos e por etapas de análise. Com esse procedimento, torna-se visível o seu aproveitamento.

Com base nos itens descritos, verificou-se um avanço no domínio da expressão oral e escrita, e a identificação do gênero lido. Do mesmo modo, a leitura de periódicos propiciou o diálogo de forma crítica com todos os fenômenos vividos pela sociedade atual fora da escola, além de interpretar as informações recebidas e a relacioná-las criticamente com outras fontes.

Dentro dessa visão, foi possível estabelecer relações entre as diferentes disciplinas, por meio da compreensão e do contato com o texto, que resultou numa leitura reflexiva. Observou-se, por parte dos alunos, um envolvimento natural entre leitor e obra de forma que os empréstimos relacionados ao acervo passaram a ser constantes.

O trabalho com o gênero conto conduz para as demais leituras e, efetivamente, tem despertado interesse no aluno pela brevidade e concisão. A partir desse procedimento, torna-se mais fácil inserir o gênero romance sem que esses leitores não se deixem impressionar pela extensão da narrativa.

Em síntese, os alunos aprenderam a diferenciar gêneros textuais; a identificar os elementos da narrativa; a perceber a função desses elementos dentro da história, bem como a ausência de alguns deles como, o tempo e o espaço, nas fábulas, enfim, ao iniciar as atividades seguiam um roteiro e no final do trabalho, a análise se sustentava por si própria.

ANEXO

Análise Estrutural da Narrativa

De um modo geral, os professores costumam recomendar aos seus alunos, após uma leitura extra classe, os dados biográficos do autor e um resumo da obra lida. Para tanto, o estudante deverá receber uma orientação didática, clara e objetiva, capaz de mostrar-lhe os aspectos a encarar, as qualidades a sublinhar, as virtudes a ressaltar no que tange à técnica da narrativa, sua estrutura, à caracterização das personagens, à linguagem ou estilo e outros aspectos.

Dessa forma, sem essa orientação, as chamadas impressões da leitura resultam vagas, difusas, traduzindo-se em apreciações infundadas ou desconexas. Na maioria das vezes, o aluno sequer se lembra da história lida.

O roteiro que segue, tem sido adotado em pesquisas de campo com alunos e apresentado resultados satisfatórios, alguns trabalhos têm-se revelado dignos de publicação. Os itens abaixo selecionados poderão ser ajustados às características da obra recomendada.

Roteiro para análise literária

I – Dados sumários sobre o autor e a obra

1 – Autor: nome completo, local e data de nascimento e morte; dados biográficos essenciais: época ou estilo da época, principais obras.

2 – Obra: romance, novela ou conto? Local (cidade), editor e data da edição lida.

3 – Resumo.

II – Estrutura – os elementos da narrativa

1. Personagens

Nomeie as mais importantes; identifique a protagonista, antagonista e, em seguida, as secundárias.

Quanto à caracterização: planas ou redondas;

1.1 O autor descreve-as logo de início?

1.2 As personagens parecem-lhe reais ou imaginárias?

1.3 Despertam-lhe simpatia, admiração, aversão, angústia ou deixam-no indiferente?

1.4 Já encontrou em outras obras personagens semelhantes?

2. Enredo (intriga, história, trama)

2.1 Há exposição ou apresentação? Se há, onde termina?

2.2 Onde começa a complicação (capítulo, cena ou episódio)?

2.3 Onde começa o clímax (auge, ápice, suspense)?

2.4 Em que trecho ocorre o desfecho?

2.5 Acha que o desfecho foi artificialmente protelado para manter o leitor em suspense?

2.6 O enredo parece-lhe invenção ou evidenciam-se nele traços autobiográficos do autor?

2.7 Há unidade e organicidade na narrativa, ou seja, os fatos, episódios encadeiam-se naturalmente, mantendo lógica entre si ou trata-se de episódios independentes?

2.8 Há uma só intriga, ou há a presença de tramas paralelas?

3. Ambiente (cenário, paisagem, lugar)

3.1 Qual é o local dos acontecimentos? Há mais de um ou há unidade de lugar?

3.2 Qual é o tipo de ambiente predominante? Físico (natureza, campo, cidade); ou social (comunidade, fábrica, escola, clube)?

3.3 Cor Local e atmosfera: nas descrições predominam os elementos físicos do ambiente, ou, ao contrário, sobressaem os de natureza emocional, intelectual ou psicológica. Especifique, exemplifique.

3.4 O autor alonga-se em descrições detalhadas do ambiente? Julga essas descrições condicionadas ou ajustadas à ação e ao comportamento das personagens? Considera-as indispensáveis ao desenrolar da história?

3.5 O ambiente descrito constitui um lugar comum do estilo da época ou escola literária? Há originalidade nas descrições? Você costuma ler todas as descrições ou “passa por cima”?

4. Tema (assunto)

Trata-se de romance (conto ou novela) de aventuras ou de ação? De fundo histórico? De suspense? De horror? De conflito amoroso ou psicológico? Tem conotação política disfarçada? Será ficção científica?

5. Tempo

5.1 A narrativa parece-lhe lenta, há pouca ação e muitos comentários e reflexões do autor?

5.2 Ou a narrativa parece-lhe rápida, acelerada, em virtude da sucessão contínua dos acontecimentos?

5.3 A ordem da narrativa é cronológica ou do tipo flasback?

5.4 Em que época se desenrola a narrativa? Qual a sua duração? Qual o ambiente predominante?

6. Ponto de Vista

6.1 O narrador é também uma das personagens? Em que pessoa gramatical é feita a narrativa (primeira ou terceira)?

6.2 O narrador é onisciente, ou seja, está em toda a parte?

6.3 O narrador relata episódios ocorridos simultaneamente em lugares e ou épocas diferentes e aos quais não poderia assistir?

6.4 O narrador acompanha as personagens como um espectador neutro ou interfere, julgando, comentando ou prevendo o comportamento delas?

6.5 O narrador tem o hábito de dirigir-se ao leitor? Exemplifique.

III – Linguagem e estilo

1. O estilo do autor parece-lhe correto? É vivo, espontâneo, convencional, vulgar? Exemplifique.

1.2 Há traços estilísticos como, preferência por certas estruturas de frase, certas palavras, expressões?

1.3 Há desleixos gramaticais?

1.4 Há distinção entre o estilo da fala, diálogos, vocabulário das personagens e do autor?

1.5 A fala dos personagens representa a realidade do cotidiano?

1.6 Há modismos no estilo do autor, como gíria, regionalismos, vulgarismos?

1.7 A linguagem é simples e clara ou é formal, sóbria e elegante?

IV – Idéias e concepções

1. A obra apresenta sinais de preconceitos de ordem moral, racial, social ou religiosa?

2. O autor aborda problemas que afligem a humanidade?

3. A obra representa um testemunho dou depoimento sobre a sua época?

V – Impressões provocadas pela leitura

1. Qual a sua impressão sobre a obra?

2. Você gostou da obra? Sentiu-se empolgado pela narrativa?

3. Em algum momento você teve vontade interferir nos acontecimentos?

4. A leitura o enriqueceu culturalmente ou espiritualmente? Provocou reflexões?

5. Leu outras obras do mesmo autor?

6. O que você gostaria de comentar a respeito da obra e do autor?

LIVROS NÃO MUDAM O MUNDO, QUEM MUDA O MUNDO SÃO AS PESSOAS.

OS LIVROS MUDAM AS PESSOAS”.

Mário Quintana